quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Dois livros antigos sobre São Paulo

Recentemente adquiri estes dois livros, editados por Monteiro Lobato na década de 1920.

Espero, depois de intervenções mínimas de restauro, poder ler e escrever um artigo sobre o que encontrar de interessante.






sábado, 7 de junho de 2008

Lobato e a Praça da Sé, 34


A praça da Sé em 1939 - B. J. Duarte

Em 1924 a Monteiro Lobato & Cia passa a se chamar Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato, e deixa os acanhados escritórios da rua Vitória para ocupar o primeiro andar do recém-inaugurado Palacete São Paulo, na Praça da Sé, 34. Construído pelo engenheiro Nestor Caiuby, o edifício se destacava na nova praça que abrigaria a futura catedral paulistana.


Nesse mesmo ano Lobato havia montado em um enorme galpão na rua Brigadeiro Machado, no Brás, o mais moderno parque gráfico do Brasil, com máquinas que vinte anos depois ainda eram consideradas de último tipo.


Mas o destino viria a atrapalhar os grandiosos projetos do escritor-editor. A revolução que eclodiu em junho de 1924 foi o início de um período crítico para a nova editora. Apesar de não ter sofrido muito com os bombardeios legalistas, a gráfica ficou paralisada por muito tempo. Além disso, o governo federal suspendeu os redescontos, gerando um pânico bancário. Não bastasse isso tudo, Lobato, a despeito de ser um empresário cujo governo era o maior cliente, escreveu uma carta ao presidente Artur Bernardes, criticando suas ações.


Mal terminava o fatídico ano de 1924, uma seca de enormes proporções atinge São Paulo, e a Light and Power começou a racionar a energia elétrica: a gráfica só podia trabalhar dois dias na semana. Para tentar minimizar o problema, Lobato resolve comprar um caríssimo gerador a diesel. Logo veria que o alto investimento fora um desperdício: não havia água para refrigerar o gerador.


Endividado, com a produção parada e um futuro sombrio, Lobato, durante uma viagem de seu sócio Octales Marcondes Ferreira, pede a falência da empresa. Todos acham que ele foi precipitado, mas esse era o jeito lobatiano de fazer as coisas. Junto com Octales, compram toda a massa da empresa falida e com ela fundam aquela que seria outro marco na história editorial brasileira: a Companhia Editora Nacional.


Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato diz que na verdade a falência foi um grande negócio, pois montavam uma nova casa editora sem dívidas e com um patrimônio incomensurável: a experiência adquirida.


Indubitavelmente, Lobato foi um pioneiro em diversos setores da cultura e da vida nacional. Considerado o pai da literatura infantil brasileira, sua figura excede essa classificação. Apaixonado e impetuoso, Lobato sempre lutou por suas crenças, sem medos, sem se ater a preconceitos e dogmas. Foi um libertário, nunca seguindo fila, como ele mesmo gostava de dizer.


Alguns livros editados em 1925, com o endereço da Praça da Sé, fizeram parte da exposição de obras raras da Semana Monteiro Lobato promovida pela Unesp, como a A Marquesa de Santos, de Paulo Setubal, Paulística, de Paulo Prado, Padre Belchior de Pontes, de Julio Ribeiro, entre outros. Dentre essas obras merece destaque uma belíssima edição de A Angústia de D. João, de Menotti del Picchia, totalmente restaurada.





quinta-feira, 17 de abril de 2008

Semana Monteiro Lobato

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp
Os visitantes da Semana Monteiro Lobato, que a Fundação Editora da Unesp e Livraria Unesp promovem a partir desta sexta-feira, dia 18 de abril, terão a oportunidade de conhecer obras raras de Monteiro Lobato.
Além da primeira edição do livro Narizinho Arrebitado, de 1921, e de outros de autoria de Monteiro Lobato nos anos seguintes, serão também apresentados livros editados pelo escritor, no período em que a Cia. Graphico-Editora Monteiro Lobato funcionou na Praça da Sé (1924 a 1925), no mesmo prédio onde hoje estão instaladas a Fundação Editora da Unesp e a Livraria Unesp.
São obras como Minha Vida Minha Obra, de Henry Ford, A Angústia de Don João, com poemas de Menotti Del Picchia, Padre Belchior de Pontes, de Julio Ribeiro, Paulistica, de Paulo Prado e A Marqueza de Santos, de Paulo Setúbal. Alguns exemplares da Revista do Brasil com artigos de Lobato também integram a mostra.

Há, ainda, ilustrações dos livros de Lobato de diferentes épocas e autores como Voltolino, Belmonte, Kurt Wiese, Jean G. Villin e outros até a atualidade.
O acervo pertence à coleção particular de Ricardo Ferreira, restaurador de livros e pesquisador da vida e obra de Monteiro Lobato.
Serão ainda exibidos vídeo e painéis fotográficos com a história de Monteiro Lobato. Os visitantes também receberão um livro de degustação, com os primeiros capítulos de Reinações de Narizinho, para crianças, e O Presidente Negro, para adultos, oferecidos pela Editora Globo, que apóia o evento.
A Semana Monteiro Lobato acontece na Livraria Unesp (Praça da Sé, 108) e fica aberta de 18 a 30 de abril, de segunda a sexta, das 9h às 18h e aos sábados, das 9h às 13h, com entrada gratuita. Mais informações: www.editoraunesp.com.br

Fonte: Pluricom Comunicação Integrada

sábado, 1 de dezembro de 2007

Pequeno álbum comparativo

Recentemente tirei algumas fotografias de lugares onde, no passado, existiram algumas das mais belas ou conhecidas casas paulistanas.


Para começar, a casa número 1 da avenida Paulista: o palacete de Adam Von Bullow em fotografia de Guilherme Gaensly por volta de 1900. Atualmente, em seu lugar está o edifício Paulicéia, bem ao lado da Gazeta.



Na esquina da Paulista com a alameda Campinas existia o palacete neocolonial de Numa de Oliveira.







Na rua Pio XII, esquina com Arthur Prado, existia o palacete de Hermann Buchard, que junto com Glete e Nothman formava a trinca de alemães empreendores do século XIX. Foi ele quem loteou Higienópolis, que nos começos recebeu o nome de Boulevard Buchard.


A seguir, a linda villa do conde Egídio Pinotti Gamba, italiano dono dos Moinhos Gamba. Essa residência ficava na esquina da Paulista com o Caminho de Santo Amaro, atual Brigadeiro Luiz Antonio. Em seu lugar encontra-se o edifício Nações Unidas.


A primeira imagem retrata a casa pro volta de 1905, em um postal; a segunda foi tirada em 1924.




Em breve um texto com imagens sobre os que restaram, e como se encontram nos dias de hoje.


Todas as fotografias atuais foram tiradas por mim em 2007. As fotografias antigas foram retiradas dos livros "Album Iconográfico da Avenida Paulista" e "O Palacete Paulistano".

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Villa Matarazzo

Pela rua Direita um automóvel vinha assustando muitos pedestres ainda mal acostumados com a novidade. Sim, já há alguns anos que Henrique Santos-Dumont rodava pela capital com um veículo a vapor, e vivia em atrito com a Prefeitura por conta dos mal estado das ruas e da insistência da municipalidade em cobrar uma taxa sobre o veículo. Por conta dessa quizília, apesar de oficialmente ter trazido o primeiro automóvel a percorrer as ruas da velha Piratininga, Henrique perdeu o direito de possuir a primeira placa de registro expedida pelo governo municipal.

Pois o tal automóvel de placa número 01 não se dirigia aos Campos Elíseos ou para Higienópolis, redutos da elite cafeicultura. Ao invés disso, subia vagarosamente a rua da Consolação, chamando a atenção dos raros transeuntes, até chegar na recém inaugurada avenida Paulista. Praticamente despovoada, ainda se assemelhava a um arrabalde de chácaras, com muitas árvores e a magnífica vista que dali se descortinava. Levantando poeira no macadame da via, o auto estaca diante do número 83, uma grande casa térrea em estilo neoclássico. Ali morava um homem alto, de bigodes negros e luzidia calva; na varanda a esposa o aguardava, acompanhada de alguns dos treze filhos do casal.

O cidadão em questão era o comerciante e industrial Francesco Matarazzo, italiano chegado no país em 1882. Não, não havia vendido bananas numa carrocinha pelas ruas da cidade como uma das lendas criadas pelos paulistanos. Na verdade seu primeiro destino no Brasil foi a cidade paulista de Sorocaba, onde manteve armazém na rua da Penha, humilde endereço que seria a gênese do maior império industrial da América do Sul do século XX.


Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, a avenida Paulista atraiu imigrantes enriquecidos, como Adam Von Bullow e Francesco Matarazzo, que construiu sua residência em 1896 num imenso terreno de 12 mil metros quadrados. Quatro anos depois uma reforma aumentava o número de dormitórios e salas, além de criar uma fachada simétrica no neoclássico em voga nesse tempo. Já foi na nova residência que, em 1901, nascia Francisco, o penúltimo filho do casal e que seria o herdeiro e continuador da obra paterna.

Entre os anos 20 e 30 a casa sofre outra reforma, tornando-se assobradada; A Villa Matarazzo, já emblemática na cidade pelo morador ilustre, agora ganhava ares grandiosos, com uma ares mais modernos na fachada. Nesse período Chiquinho, casado com a prima Mariângela, já era o braço direito do pai na administração dos negócios. Essa decisão do Conde causou inúmeras desavenças familiares, resultando até mesmo em disputas na justiça.


Em 10 de fevereiro de 1937 a Paulista parou no enterro do Conde. A multidão seguiu o cortejo até o mausoléu da família no cemitério da Consolação.

Em 1941 a casa é totalmente remodelada pelos arquitetos Morpurgo e Piacentini, responsáveis pela construção do edifício Matarazzo na praça do Patriarca, em 1939. Essa foi a imagem mais conhecida e que resistiu até janeiro de 1996, quando “desabou” com a chuva que castigava a cidade. Esse desabamento não foi acidental, obviamente. Desde 1988 sob disputa na justiça com a Prefeitura, que ali queria criar o Museu do Trabalhador, os herdeiros já haviam dinamitado estruturas do porão. A chuva só fez por completar o trabalho: na madrugada de 11 de janeiro aluiu a parte central do casarão.

Nas semanas seguintes o que havia ficado em pé foi demolido por uma empresa, que certamente lucrou muito com todo o mármore travertino dos pisos e fachadas, com os encanamentos e calhas de cobre, com as maçanetas, dobradiças, portas e janelas. Enfim, era a pá de entulho na história de um império.


Imagens: Matarazzo – 100 anos; Revista Veja (21/01/1996). Diário Popular (12/01/1996)

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