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sábado, 1 de dezembro de 2007

Pequeno álbum comparativo

Recentemente tirei algumas fotografias de lugares onde, no passado, existiram algumas das mais belas ou conhecidas casas paulistanas.


Para começar, a casa número 1 da avenida Paulista: o palacete de Adam Von Bullow em fotografia de Guilherme Gaensly por volta de 1900. Atualmente, em seu lugar está o edifício Paulicéia, bem ao lado da Gazeta.



Na esquina da Paulista com a alameda Campinas existia o palacete neocolonial de Numa de Oliveira.







Na rua Pio XII, esquina com Arthur Prado, existia o palacete de Hermann Buchard, que junto com Glete e Nothman formava a trinca de alemães empreendores do século XIX. Foi ele quem loteou Higienópolis, que nos começos recebeu o nome de Boulevard Buchard.


A seguir, a linda villa do conde Egídio Pinotti Gamba, italiano dono dos Moinhos Gamba. Essa residência ficava na esquina da Paulista com o Caminho de Santo Amaro, atual Brigadeiro Luiz Antonio. Em seu lugar encontra-se o edifício Nações Unidas.


A primeira imagem retrata a casa pro volta de 1905, em um postal; a segunda foi tirada em 1924.




Em breve um texto com imagens sobre os que restaram, e como se encontram nos dias de hoje.


Todas as fotografias atuais foram tiradas por mim em 2007. As fotografias antigas foram retiradas dos livros "Album Iconográfico da Avenida Paulista" e "O Palacete Paulistano".

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Villa Matarazzo

Pela rua Direita um automóvel vinha assustando muitos pedestres ainda mal acostumados com a novidade. Sim, já há alguns anos que Henrique Santos-Dumont rodava pela capital com um veículo a vapor, e vivia em atrito com a Prefeitura por conta dos mal estado das ruas e da insistência da municipalidade em cobrar uma taxa sobre o veículo. Por conta dessa quizília, apesar de oficialmente ter trazido o primeiro automóvel a percorrer as ruas da velha Piratininga, Henrique perdeu o direito de possuir a primeira placa de registro expedida pelo governo municipal.

Pois o tal automóvel de placa número 01 não se dirigia aos Campos Elíseos ou para Higienópolis, redutos da elite cafeicultura. Ao invés disso, subia vagarosamente a rua da Consolação, chamando a atenção dos raros transeuntes, até chegar na recém inaugurada avenida Paulista. Praticamente despovoada, ainda se assemelhava a um arrabalde de chácaras, com muitas árvores e a magnífica vista que dali se descortinava. Levantando poeira no macadame da via, o auto estaca diante do número 83, uma grande casa térrea em estilo neoclássico. Ali morava um homem alto, de bigodes negros e luzidia calva; na varanda a esposa o aguardava, acompanhada de alguns dos treze filhos do casal.

O cidadão em questão era o comerciante e industrial Francesco Matarazzo, italiano chegado no país em 1882. Não, não havia vendido bananas numa carrocinha pelas ruas da cidade como uma das lendas criadas pelos paulistanos. Na verdade seu primeiro destino no Brasil foi a cidade paulista de Sorocaba, onde manteve armazém na rua da Penha, humilde endereço que seria a gênese do maior império industrial da América do Sul do século XX.


Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, a avenida Paulista atraiu imigrantes enriquecidos, como Adam Von Bullow e Francesco Matarazzo, que construiu sua residência em 1896 num imenso terreno de 12 mil metros quadrados. Quatro anos depois uma reforma aumentava o número de dormitórios e salas, além de criar uma fachada simétrica no neoclássico em voga nesse tempo. Já foi na nova residência que, em 1901, nascia Francisco, o penúltimo filho do casal e que seria o herdeiro e continuador da obra paterna.

Entre os anos 20 e 30 a casa sofre outra reforma, tornando-se assobradada; A Villa Matarazzo, já emblemática na cidade pelo morador ilustre, agora ganhava ares grandiosos, com uma ares mais modernos na fachada. Nesse período Chiquinho, casado com a prima Mariângela, já era o braço direito do pai na administração dos negócios. Essa decisão do Conde causou inúmeras desavenças familiares, resultando até mesmo em disputas na justiça.


Em 10 de fevereiro de 1937 a Paulista parou no enterro do Conde. A multidão seguiu o cortejo até o mausoléu da família no cemitério da Consolação.

Em 1941 a casa é totalmente remodelada pelos arquitetos Morpurgo e Piacentini, responsáveis pela construção do edifício Matarazzo na praça do Patriarca, em 1939. Essa foi a imagem mais conhecida e que resistiu até janeiro de 1996, quando “desabou” com a chuva que castigava a cidade. Esse desabamento não foi acidental, obviamente. Desde 1988 sob disputa na justiça com a Prefeitura, que ali queria criar o Museu do Trabalhador, os herdeiros já haviam dinamitado estruturas do porão. A chuva só fez por completar o trabalho: na madrugada de 11 de janeiro aluiu a parte central do casarão.

Nas semanas seguintes o que havia ficado em pé foi demolido por uma empresa, que certamente lucrou muito com todo o mármore travertino dos pisos e fachadas, com os encanamentos e calhas de cobre, com as maçanetas, dobradiças, portas e janelas. Enfim, era a pá de entulho na história de um império.


Imagens: Matarazzo – 100 anos; Revista Veja (21/01/1996). Diário Popular (12/01/1996)

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

A avenida que nunca foi dos barões


Nos últimos anos diversos artigos já vem contradizendo o senso comum que batizou a avenida Paulista como reduto dos “barões do café”. A expressão, que no mais das vezes apenas indica a elite cafeeira surgida em meados do século XIX, não pode ser aplicada a esse endereço especificamente, visto que proporcionalmente foram poucas as famílias ligadas diretamente a essa cultura a residir na avenida.

De modo simplista, poderiamos tomar a lista de assinantes da Cia. Telefônica e provar que a Paulista era endereço dos imigrantes, bastando ver os nomes que ali estão: Matarazzo, Rizkhalla, Assad, Schaumann, Weizflog, Von Bullow, Thiollier, Klabin, Crespi, Siciliano, Gamba, Scarpa. Os nomes nacionais, apesar de pertencerem à famílias ligadas a cafeicultura, em sua maioria dedicavam-se a profissões liberais, desvinculados da agricultura e, portanto, não se enquadrando no que se convencionou chamar de “barões do café”. Nicolau Moraes Barros (médico); Horácio Sabino (empresário); Numa de Oliveira (banqueiro); Ernesto Dias de Castro (importador), Luis Anhaia (professor) eram alguns desses indivíduos que, apesar de ligados à economia cafeeira não eram produtores, mas sim profissionais liberais ou empresários notadamente urbanos.


Os cafeicultores propriamente ditos que ali residiram até a virada do século foram poucos, como Francisco Ferreira Santos e Joaquim Franco de Mello. Literalmente, a única pessoa que recebeu título de nobreza nos tempos do Império a residir na avenida foi a Baronesa de Arary, que construiu em 1917 um palacete com projeto de Victor Dubugras, junto ao parque Villon. Mas isso foi após ter morado nos Campos Elíseos e depois, já viúva, em Higienópolis.


A avenida Paulista foi endereço da nova elite que surgia, oriunda do comércio e da indústria, como se pode ver numa simples pesquisa primária. Além disso, apesar de endereço chic, muitas famílias de classe média residiram em diversas casas de aluguel construídas especialmente para este fim. Não estamos aqui tratando do entorno da avenida, como alamedas Santos, São Carlos do Pinhal, Campinas, etc, pois aí se torna mais notável a disparidade de classes sociais convivendo no mesmo espaço urbano.


O barões do café – que receberam títulos nobiliárquicos do Império - , esses moraram ou em suas fazendas (notadamente os do Vale do Paraíba) ou no chamado centro histórico da cidade. Dali, alguns se transferiram para os caminhos que demandavam a estação da Luz, como rua Alegre e da Constituição (hoje, respectivamente, Brigadeiro Tobias e Florêncio de Abreu) ou para os Campos Elíseos, cujo loteamento se iniciou em 1880.


Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, portando já no período republicano, a avenida Paulista foi ter a primeira casa (fig. 1) construída em 1895, por Adam Von Bullow, presidente da Cia. Antarctica. Um ano depois Francesco Matarazzo terminou sua residência, uma casa térrea com planta que seguia o esquema tradicional quando a norma já eram os padrões franceses de distribuição. Luís Anhaia entra com seu projeto na Prefeitura em 1898.


No período do Encilhamento a febre imobiliária concentrou-se nos bairros que já estavam implantados como Campos Elíseos, Santa Cecília, Vila Buarque, Chá, Liberdade e imediações do centro histórico.


Em 1900 a Ligth inaugura a linha de bondes elétricos, atraindo novos moradores como Horácio Sabino. Morando na General Jardim, desde fins do século ele possuía na avenida uma chácara apenas para recreio, com uma velha casa sede de um antigo sítio e um grande pomar de jabuticabeiras, além de uma vaca. Em 1903 é que decide construir um belo palacete art noveau sob projeto de Victor Dubugras.


Portanto é na virada do século que começa a efetiva ocupação da avenida, como podemos ver nas célebres fotografias (fig. 2) de Guilherme Gaensly tiradas em 1902 da torre do palacete Von Bullow. Nessa época a maior parte dos titulares do Império já havia falecido.


Em linhas gerais podemos encerrar a questão verificando que nenhum membro de famílias como Silva Prado, Souza Barros, Arruda Botelho, Paes de Barros, Souza Queiróz ou Penteado, por exemplo, tenham residido na avenida até 1910. Uma breve análise nos mostra que essas famílias concentravam-se em Higienópolis (Alvares Penteado e Silva Prado), avenida São Luiz (que era um feudo dos Souza Queiróz), Florêncio de Abreu e Brigadeiro Tobias (Paes de Barros, Souza Barros) e Campos Elíseos (Guedes Penteado, Arruda Botelho, Souza Guedes).


Em 1929 a crise da bolsa de Nova York acabou diminuindo a importância dessa elite de “barões e quatrocentões”, sendo que as classes ligadas à indústria e ao comércio começaram a ocupar o espaço antes dominado pelos cafeicultores.


Viveram – e morreram – em seus sobrados no centro os Barões de Tietê, Itapetininga, Silva Gameiro, Iguape, Souza Queiróz, São João do Rio Claro, Piratininga e Tatuí. O Marquês de Três Rios morava na Luz, onde hoje se encontra a Escola Politécnica; o Barão de Limeira morava na chácara na subida do Riachuelo. Já o primeiro Barão de Piracicaba morou na Florêncio de Abreu enquanto seu filho, de igual título, morava na rua Brigadeiro Tobias. A Marquesa de Santos morou em Santa Efigênia (quando casada com o Brigadeiro Tobias) e depois de viúva, até sua morte, na rua do Carmo. Nos Campos Elíseos viveu alguns anos o Barão de Arary, casado com uma sobrinha anos mais nova que depois de viúva foi residir na Paulista. O Barão de Pirapitingui havia construído seu sobrado na esquina da Ipiranga com Visconde de Rio Branco, casa que depois ficou de herança para sua filha Olívia, que morava a poucas quadras dali.


Os mais longevos titulares do Império foram o Barão da Bocaina, que faleceu em 1931 e morava nos Campos Elíseos, e a Baronesa de Arary, falecida em 1951 já centenária, e a única a realmente ter residido na avenida Paulista.


O resto é lenda.


As imagens que ilustram esse artigo são de Guilherme Gaensly.


Para imagens e mais informações: Álbum Iconográfico da Avenida Paulista, de Benedito Lima de Toledo


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