Algumas imagens do passado que ainda resiste no presente.
Palacete José de Souza Queiróz, 1911.
Antes de mais nada, vamos esclarecer o imbróglio acima. Os irmãos Antonio e Bento Paes de Barros (respectivamente Barão de Piracicaba I e Barão de Itu) casaram-se com as irmãs do Brigadeiro Tobias, Gertrudes e Leonarda. O filho de Bento casou-se com a prima Antonia, e foram os Marqueses de Itu. Ficou claro?Ângela Ribeiro de Cerqueira, casada com João Manoel Mesquita.
Joaquim Floriano de Barros, casado com Eliza Guilhermina.
Genebra de Barros Leite, casada em primeiras núpcias com o Brigadeiro Luiz Antonio de Souza, tendo deste matrimônio seis filhos, entre eles Ilídia (Marquesa de Valença), Luiz Antonio (comendador), Francisco Antonio (Barão de Souza Queiróz) e Vicente (Barão de Limeira). Em segundas núpcias Genebra uniu-se a José da Costa Carvalho, Marquês de Monte Alegre, sem descendentes.
Escholastica Joaquina de Barros, casada com Miguel Antonio de Azevedo Veiga.
Bento Paes de Barros, futuro Barão de Itu, foi casado com Leonarda de Aguiar. Tiveram sete filhos.
Antonio Paes de Barros, o primeiro Barão de Piracicaba casou-se com a Gertrudes Eufrosina de Aguiar e tiveram sete filhos.
Francisco Xavier Paes de Barros, conhecido por Capitão Chico de Sorocaba, casou-se a primeira vez com Rosa Cândida de Aguiar. Após o falecimento desta, desposou a cunhada Anna de Aguiar. Desta maneira as quatro irmãs do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar casaram-se com os irmão Paes de Barros. Enviuvando pela segunda vez, o capitão Chico casou-se com Andressa Lopes de Oliveira.
Anna Joaquina de Barros casou-se com João Xavier da Costa Aguiar.
Maria de Barros Leite casou-se com o conselheiro Francisco de Paula Souza e Mello.
Já percebemos que a maior parte dos casamentos nessa geração eram endogâmicos, ou seja, fechados dentro de um mesmo grupo familiar. Na geração seguinte não será diferente, pois ocorrem diversos matrimônios entre primos e tio(a)s e sobrinho(a)s.
Nesse tronco formado pelos filhos de Antonio de Barros Penteado surgem as famílias de maior expressão dentro do grupo Barros. São os Paes de Barros, Aguiar Barros, Souza Queiróz, Souza Barros. Também surgem aí os ramos dos Rezendes, dos Paula Souza, Vergueiro, Costa Aguiar, entre outros.
Essa geração terá grande destaque no cenário político e econômico não só paulista como no brasileiro. Senadores, conselheiros, ministros, barões, comendadores, todos eles terão influência no processo de enriquecimento de São Paulo, cuja economia permaneceu estagnada por quase dois séculos. Inicialmente cultivando a cana-de-açúcar, notadamente no que convencionou-se chamar de “quadrilátero do açúcar” (Jundiaí, Campinas, Itu e Piracicaba), em meados do século XIX iniciariam a plantação de café, o que iria modificar radicalmente a economia paulista.
Cafeicultores, monarquistas e escravocratas, poucos dessa geração irão assistir à queda da Monarquia e à libertação dos escravos. Nessa época seus filhos já estarão assumindo seus próprios papéis na história e vivendo o conturbado momento de transição entre os séculos XIX e XX.
O apogeu no século XIX
No período que compreende a proclamação da Independência até o fim do Império as duas famílias conheceram seu melhor período político, econômico e social. Dominando a política na cidade além de atividades culturais e vida social, ambos os grupos teceram importantes alianças através de matrimônios interfamiliares e sociedades políticas e comerciais que proporcionaram o fortalecimento de cada um dos grupos, bem como de sua representatividade na vida paulistana.
Nesse período podemos destacar diversas figuras de extrema importância na história do Brasil e que estavam ligadas às familias-chave alvo deste estudo.
Ligados aos Prado, ou mesmo sendo um deles, estão os irmãos Andrada, o brigadeiro Manoel Rodrigues Jordão, o Barão de Antonina, Eleutério da Silva Prado, Antonio da Silva Prado III (Barão de Iguape), os irmãos Antonio, Martinico, Eduardo e Caio Prado, entre outros.
Na família Souza Queiróz pode-se elencar o Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, o Padre Diogo Antonio Feijó, o Senador Nicolau Vergueiro, o Marquês de Monte Alegre, coronel Antonio Paes de Barros, o Major Diogo Antonio de Barros, o Senador Francisco de Souza Queiróz, o Senador Francisco de Paula Souza.
Retomando o início deste artigo, se fosse um romance poderiam ser colocados em campos distintos os dois grupos familiares na grande questão do último quartel do século XIX: monarquistas e republicanos. O caso é que na realidade havia dissidências dentro das famílias nesse aspecto. Para exemplo clássico podemos tomar o núcleo principal dos Prado, no qual Martinico fazia oposição aos irmãos Antonio, Eduardo e Caio. Chegaram mesmo a cortar relações, sendo que Martinico e Eduardo não mais se falaram.
Um incidente que faz parte da história familiar relata que na última visita do imperador a São Paulo: dona Veridiana dispôs seus netos em alas na entrada da Villa Maria, para que jogassem pétalas de rosa no monarca. Pois um dos meninos formou uma bola de pétalas e atirou bem no rosto de D. Pedro. A partir desse ponto as versões variam: uma reza que ao saber que o menino era filho de Martinico, o imperador fez um gracejo, comparando os espíritos de pai e filho. Outra afirma que ficou visivelmente contrariado, o que gerou um tremendo mal-estar para dona Veridiana.
Já em relação ao abolicionismo não houve posição coesa do grupo: enquanto alguns desde meados do século XIX já testavam uso de mão-de-obra livre, outros mantiveram seus cativeiros até a promulgação da Lei Áurea. No grupo Souza Queiróz as ações de colonização foram mais acentuadas, como as implantações feita pelo Senador Vergueiro, Comendador Souza Barros, Senador Queiróz, entre outros. No caso dos Prado, o Conselheiro manteve-se escravocrata até vésperas da Lei Áurea; já seu irmão Martinico foi um dos principais defensores da idéia de braços livres na cafeicultura e um dos fundadores da Sociedade Promotora de Imigração, cujo nome de maior destaque entre seus componentes foi o Conde de Parnaíba, ligado por laços familiares ao grupo dos Prado.
Após a queda da monarquia o Conselheiro Prado viaja para Europa, profundamente desgostoso com a situação do país. Por lá permanece alguns anos e ao retornar começa a ser instado por amigos que haviam aderido ao novo regime a retomar sua carreira política. Em 1899 assume a prefeitura paulistana permanecendo no cargo por 11 anos, sendo sua gestão um das mais importantes na história da cidade.
Na última década do século os monarquistas lutavam pela restauração e a cidade foi alvo de violentos combates entre este grupo e os republicanos. Eduardo Prado era um dos mais combativos monarquistas e seu jornal "O Diário de São Paulo" o veículo de mídia do grupo. Até mesmo Veridiana assumiu o comando do jornal por algum tempo enquanto o filho fugia da repressão do Marechal Floriano. Foi um período sombrio na família Prado.
No grupo dos Souza Queiróz despontavam nomes como Washington Luiz (genro do Barão de Piracicaba II), Albuquerque Lins (genro do barão de Souza Queiróz), Francisco Antonio de Souza Queiróz Junior, entre outros.
Um episódio interessante na vida da cidade teve como protagonista os Barões de Tatuy. Para a construção do viaduto do Chá era necessário demolir o velho sobrado onde moravam os barões, que ficava na esquina da rua Direita com a Libero Badaró, muito antes de existir a praça do Patriarca. O que não passava de uma disputa judicial e de foro municipal acabou por tomar ares de briga entre monarquistas reacionários e republicanos progressistas (veja mais em
O século XIX terminava e com ele uma geração saía de cena, em sua maior parte de titulares do Império, fazendeiros, políticos. Seus descendentes, dali por diante, é que tomariam as rédeas e assumiriam os papéis que lhes cabiam no cenário da aristocracia do café. O século XX se anunciava prometendo novidades e mudanças, como uma nova era de ouro na história da humanidade. Novos tempos.
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Como parte inicial do projeto deste blog, este artigo finaliza o estudo macroambiental das famílias de destaque na história paulista.
Os próximos artigos irão tratar de casos específicos, ligações familiares mais detalhadas e que em grande parte terão como protagonistas personagens ligados ao grupos descritos anteriormente.
Fosse a história paulistana narrada como um romance e se poderia dizer que as duas grandes famílias citadas no título deste artigo eram as que detinham o poder na cidade no século XIX. Como a realidade é diferente dos romances, há que forçosamente deixar isso de lado e analisar com mais profundidade o papel desempenhado por cada uma delas, de maneira similar e paralela, no cotidiano paulistano tratando-as como famílias-chave na história da cidade.
Em comum ambas tinham como atividade econômica fundamental a cafeicultura, além da intensa europeização na educação e no modus vivendi, a participação no processo de urbanização e abertura de novos bairros, a expansão da malha ferroviária no Estado e, por fim, o impulso inicial da indústria ligada a cafeicultura (máquinas, equipamentos e sacaria de juta).
O parâmetro escolhido para definir essa divisão entre duas famílias foram as relações de parentesco, visto que social e comercialmente havia uma integração entre esses grupos. A escolha das famílias-chave foi baseada no papel que ambas desempenharam no cotidiano da cidade início do século XIX, no período pré e pós-Independência, com os Silva Prado apoiando D. Pedro I e os Souza Queiróz envolvidos em insurreições, como a revolta comandada por Francisco Inácio, que passou para a história com o nome de bernarda. Anos depois, na Revolução Liberal de 1842, novamente surgem os Souza Queiróz envolvidos em luta contra o governo, visto que o comandante Rafael Tobias de Aguiar era ligado a esse grupo familiar.
A divisão entre essas duas famílias de nenhum modo exclui as demais que tiveram destaque no período, visto se ligavam diretamente a alguma delas. De modo geral pode-se dividir as famílias que formavam a elite agrícola da segunda metade do século XIX em dois grupos:
Silva Prado: Alvares Penteado, Alves de Lima, Souza Guedes, Costa Pinto, Silva Machado, Pacheco Chaves, Pacheco Jordão, Rudge, Silva Ramos, Queiróz Telles.
Souza Queiróz: Paes de Barros, Rezende, Souza Barros, Campos, Barbosa de Oliveira, Arruda Botelho, Aguiar Barros, Prates, Paula Souza, Vergueiro.
As diferenças entre os grupos não são grandes, visto que exerciam o mesmo papel econômica e politicamente. Pode ser destacado o fato de, enquanto os Prado eram mais ligados culturalmente à França, os Souza Queiróz tinham fortes ligações com Alemanha. Além disso, os membros desta família seguiam profissões como engenharia, agronomia, medicina em detrimento da advocacia.
Claro que todas essas afirmações são baseadas num modelo macroambiental, de uma forma generalizada. Analisando cada família ligada a esses grupos em particular as diferenças tendem a diminuir, pois todas faziam parte de uma elite com valores e padrões similares.
Aqui serão analisados aspectos gerais de cada família-chave em diversos aspectos na história da cidade e quais as influências e participações desses grupos familiares.
Nos próximos artigos o enfoque será maior e mais detalhando em cada família participante dos grupos, bem como em determinados membros que tiveram maior destaque na história paulistana.