sábado, 7 de junho de 2008

Lobato e a Praça da Sé, 34


A praça da Sé em 1939 - B. J. Duarte

Em 1924 a Monteiro Lobato & Cia passa a se chamar Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato, e deixa os acanhados escritórios da rua Vitória para ocupar o primeiro andar do recém-inaugurado Palacete São Paulo, na Praça da Sé, 34. Construído pelo engenheiro Nestor Caiuby, o edifício se destacava na nova praça que abrigaria a futura catedral paulistana.


Nesse mesmo ano Lobato havia montado em um enorme galpão na rua Brigadeiro Machado, no Brás, o mais moderno parque gráfico do Brasil, com máquinas que vinte anos depois ainda eram consideradas de último tipo.


Mas o destino viria a atrapalhar os grandiosos projetos do escritor-editor. A revolução que eclodiu em junho de 1924 foi o início de um período crítico para a nova editora. Apesar de não ter sofrido muito com os bombardeios legalistas, a gráfica ficou paralisada por muito tempo. Além disso, o governo federal suspendeu os redescontos, gerando um pânico bancário. Não bastasse isso tudo, Lobato, a despeito de ser um empresário cujo governo era o maior cliente, escreveu uma carta ao presidente Artur Bernardes, criticando suas ações.


Mal terminava o fatídico ano de 1924, uma seca de enormes proporções atinge São Paulo, e a Light and Power começou a racionar a energia elétrica: a gráfica só podia trabalhar dois dias na semana. Para tentar minimizar o problema, Lobato resolve comprar um caríssimo gerador a diesel. Logo veria que o alto investimento fora um desperdício: não havia água para refrigerar o gerador.


Endividado, com a produção parada e um futuro sombrio, Lobato, durante uma viagem de seu sócio Octales Marcondes Ferreira, pede a falência da empresa. Todos acham que ele foi precipitado, mas esse era o jeito lobatiano de fazer as coisas. Junto com Octales, compram toda a massa da empresa falida e com ela fundam aquela que seria outro marco na história editorial brasileira: a Companhia Editora Nacional.


Em carta ao amigo Godofredo Rangel, Lobato diz que na verdade a falência foi um grande negócio, pois montavam uma nova casa editora sem dívidas e com um patrimônio incomensurável: a experiência adquirida.


Indubitavelmente, Lobato foi um pioneiro em diversos setores da cultura e da vida nacional. Considerado o pai da literatura infantil brasileira, sua figura excede essa classificação. Apaixonado e impetuoso, Lobato sempre lutou por suas crenças, sem medos, sem se ater a preconceitos e dogmas. Foi um libertário, nunca seguindo fila, como ele mesmo gostava de dizer.


Alguns livros editados em 1925, com o endereço da Praça da Sé, fizeram parte da exposição de obras raras da Semana Monteiro Lobato promovida pela Unesp, como a A Marquesa de Santos, de Paulo Setubal, Paulística, de Paulo Prado, Padre Belchior de Pontes, de Julio Ribeiro, entre outros. Dentre essas obras merece destaque uma belíssima edição de A Angústia de D. João, de Menotti del Picchia, totalmente restaurada.





quinta-feira, 17 de abril de 2008

Semana Monteiro Lobato

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp

Livros raros de Monteiro Lobato em exposição na Livraria Unesp
Os visitantes da Semana Monteiro Lobato, que a Fundação Editora da Unesp e Livraria Unesp promovem a partir desta sexta-feira, dia 18 de abril, terão a oportunidade de conhecer obras raras de Monteiro Lobato.
Além da primeira edição do livro Narizinho Arrebitado, de 1921, e de outros de autoria de Monteiro Lobato nos anos seguintes, serão também apresentados livros editados pelo escritor, no período em que a Cia. Graphico-Editora Monteiro Lobato funcionou na Praça da Sé (1924 a 1925), no mesmo prédio onde hoje estão instaladas a Fundação Editora da Unesp e a Livraria Unesp.
São obras como Minha Vida Minha Obra, de Henry Ford, A Angústia de Don João, com poemas de Menotti Del Picchia, Padre Belchior de Pontes, de Julio Ribeiro, Paulistica, de Paulo Prado e A Marqueza de Santos, de Paulo Setúbal. Alguns exemplares da Revista do Brasil com artigos de Lobato também integram a mostra.

Há, ainda, ilustrações dos livros de Lobato de diferentes épocas e autores como Voltolino, Belmonte, Kurt Wiese, Jean G. Villin e outros até a atualidade.
O acervo pertence à coleção particular de Ricardo Ferreira, restaurador de livros e pesquisador da vida e obra de Monteiro Lobato.
Serão ainda exibidos vídeo e painéis fotográficos com a história de Monteiro Lobato. Os visitantes também receberão um livro de degustação, com os primeiros capítulos de Reinações de Narizinho, para crianças, e O Presidente Negro, para adultos, oferecidos pela Editora Globo, que apóia o evento.
A Semana Monteiro Lobato acontece na Livraria Unesp (Praça da Sé, 108) e fica aberta de 18 a 30 de abril, de segunda a sexta, das 9h às 18h e aos sábados, das 9h às 13h, com entrada gratuita. Mais informações: www.editoraunesp.com.br

Fonte: Pluricom Comunicação Integrada

sábado, 1 de dezembro de 2007

Pequeno álbum comparativo

Recentemente tirei algumas fotografias de lugares onde, no passado, existiram algumas das mais belas ou conhecidas casas paulistanas.


Para começar, a casa número 1 da avenida Paulista: o palacete de Adam Von Bullow em fotografia de Guilherme Gaensly por volta de 1900. Atualmente, em seu lugar está o edifício Paulicéia, bem ao lado da Gazeta.



Na esquina da Paulista com a alameda Campinas existia o palacete neocolonial de Numa de Oliveira.







Na rua Pio XII, esquina com Arthur Prado, existia o palacete de Hermann Buchard, que junto com Glete e Nothman formava a trinca de alemães empreendores do século XIX. Foi ele quem loteou Higienópolis, que nos começos recebeu o nome de Boulevard Buchard.


A seguir, a linda villa do conde Egídio Pinotti Gamba, italiano dono dos Moinhos Gamba. Essa residência ficava na esquina da Paulista com o Caminho de Santo Amaro, atual Brigadeiro Luiz Antonio. Em seu lugar encontra-se o edifício Nações Unidas.


A primeira imagem retrata a casa pro volta de 1905, em um postal; a segunda foi tirada em 1924.




Em breve um texto com imagens sobre os que restaram, e como se encontram nos dias de hoje.


Todas as fotografias atuais foram tiradas por mim em 2007. As fotografias antigas foram retiradas dos livros "Album Iconográfico da Avenida Paulista" e "O Palacete Paulistano".

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A Villa Matarazzo

Pela rua Direita um automóvel vinha assustando muitos pedestres ainda mal acostumados com a novidade. Sim, já há alguns anos que Henrique Santos-Dumont rodava pela capital com um veículo a vapor, e vivia em atrito com a Prefeitura por conta dos mal estado das ruas e da insistência da municipalidade em cobrar uma taxa sobre o veículo. Por conta dessa quizília, apesar de oficialmente ter trazido o primeiro automóvel a percorrer as ruas da velha Piratininga, Henrique perdeu o direito de possuir a primeira placa de registro expedida pelo governo municipal.

Pois o tal automóvel de placa número 01 não se dirigia aos Campos Elíseos ou para Higienópolis, redutos da elite cafeicultura. Ao invés disso, subia vagarosamente a rua da Consolação, chamando a atenção dos raros transeuntes, até chegar na recém inaugurada avenida Paulista. Praticamente despovoada, ainda se assemelhava a um arrabalde de chácaras, com muitas árvores e a magnífica vista que dali se descortinava. Levantando poeira no macadame da via, o auto estaca diante do número 83, uma grande casa térrea em estilo neoclássico. Ali morava um homem alto, de bigodes negros e luzidia calva; na varanda a esposa o aguardava, acompanhada de alguns dos treze filhos do casal.

O cidadão em questão era o comerciante e industrial Francesco Matarazzo, italiano chegado no país em 1882. Não, não havia vendido bananas numa carrocinha pelas ruas da cidade como uma das lendas criadas pelos paulistanos. Na verdade seu primeiro destino no Brasil foi a cidade paulista de Sorocaba, onde manteve armazém na rua da Penha, humilde endereço que seria a gênese do maior império industrial da América do Sul do século XX.


Inaugurada em 8 de dezembro de 1891, a avenida Paulista atraiu imigrantes enriquecidos, como Adam Von Bullow e Francesco Matarazzo, que construiu sua residência em 1896 num imenso terreno de 12 mil metros quadrados. Quatro anos depois uma reforma aumentava o número de dormitórios e salas, além de criar uma fachada simétrica no neoclássico em voga nesse tempo. Já foi na nova residência que, em 1901, nascia Francisco, o penúltimo filho do casal e que seria o herdeiro e continuador da obra paterna.

Entre os anos 20 e 30 a casa sofre outra reforma, tornando-se assobradada; A Villa Matarazzo, já emblemática na cidade pelo morador ilustre, agora ganhava ares grandiosos, com uma ares mais modernos na fachada. Nesse período Chiquinho, casado com a prima Mariângela, já era o braço direito do pai na administração dos negócios. Essa decisão do Conde causou inúmeras desavenças familiares, resultando até mesmo em disputas na justiça.


Em 10 de fevereiro de 1937 a Paulista parou no enterro do Conde. A multidão seguiu o cortejo até o mausoléu da família no cemitério da Consolação.

Em 1941 a casa é totalmente remodelada pelos arquitetos Morpurgo e Piacentini, responsáveis pela construção do edifício Matarazzo na praça do Patriarca, em 1939. Essa foi a imagem mais conhecida e que resistiu até janeiro de 1996, quando “desabou” com a chuva que castigava a cidade. Esse desabamento não foi acidental, obviamente. Desde 1988 sob disputa na justiça com a Prefeitura, que ali queria criar o Museu do Trabalhador, os herdeiros já haviam dinamitado estruturas do porão. A chuva só fez por completar o trabalho: na madrugada de 11 de janeiro aluiu a parte central do casarão.

Nas semanas seguintes o que havia ficado em pé foi demolido por uma empresa, que certamente lucrou muito com todo o mármore travertino dos pisos e fachadas, com os encanamentos e calhas de cobre, com as maçanetas, dobradiças, portas e janelas. Enfim, era a pá de entulho na história de um império.


Imagens: Matarazzo – 100 anos; Revista Veja (21/01/1996). Diário Popular (12/01/1996)

domingo, 14 de outubro de 2007

A rua Alegre e a rua Triste

São Paulo já batizou com muito mais graça e pitoresco as suas ruas. Os velhos pirapitinganos andavam pelas pedras irregulares das ruas do Jogo da Bola, das Casinhas, da Freira, becos do Inferno e da Cachaça, ladeira do Quebra-bunda.


Nesses tempos havia duas ruas de nomes interessantes – Alegre e Triste –, que saíam do largo de Santa Efigênia em demanda aos campos do Guaré, lugar que com o passar dos anos ficou conhecido como bairro da Luz.


As ruas Alegre e Triste corriam quase paralelas, nascendo pelos flancos do sobrado do Brigadeiro Tobias, ali mesmo junto à igreja de Santa Efigênia.


Esse prédio era o mais antig0 da rua Alegre, construído por volta de 1798 pelo Coronel Luis Antonio Neves de Carvalho. Constituía num imenso sobrado de taipa, com 20 janelas voltadas para essa rua; posteriormente foi comprado pelo Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar, que aí residiu com a Marquesa de Santos. Com a construção do viaduto Santa Efigênia, em 1913, parte do sobrado teve que ser demolida, desaparecendo definitivamente em 1924.

Residência do Brigadeiro Rafael Tobias de Aguiar (Gravura de Alberto Esteves)


Por esse tempo a rua Alegre já era endereço da família do Brigadeiro Gavião Peixoto, que possuía uma grande chácara. Com o desmembramento desta entre os filhos, a antiga casa-sede coube a Camilo Gavião Peixoto, que por volta de 1859 a reformou segundo o estilo neoclássico em voga no Rio de Janeiro. Nesse ano seu irmão José Maria Gavião construía um sobrado no mesmo estilo. Junto com o sobrado do Brigadeiro Tobias, essas eram as casas mais antigas da rua Alegre e que resistiram até o século XX.

Residência de Camilo Gavião Peixoto (Militão Augusto de Azevedo)

Residência de José Maria Gavião Peixoto (Militão Augusto de Azevedo)


Depois da implantação da ferrovia, em 1867, a rua Alegre tornou-se um dos endereços preferidos da elite cafeeira; ali residiram membros das famílias Barros, Almeida Prado, Barbosa de Oliveira, Arruda Botelho, Souza Aranha. Na década de 1870 diversas novas construções surgiram nessa rua: o solar de Rafael Tobias Paes de Barros (Barão de Piracicaba II), o chalé do Conde de Três Rios (Joaquim Egídio de Souza Aranha), depois residência do Conde de Pinhal (Antonio Carlos de Arruda Botelho), além das residências de José Vasconcelos de Almeida Prado e Antonio Alvares Penteado.


Em 1877 a Real Sociedade de Beneficência Portuguesa construiu ali sua sede, na esquina da travessa que hoje leva o nome dessa instituição.

Hospital São Joaquim da Beneficência Portuguesa (Autor desconhecido)


Como já visto em artigo anterior, as uniões endogâmicas e a repetição de certos nomes geravam diversos equívocos para futuros pesquisadores. Morando na rua Alegre, dois primos tinham nomes praticamente iguais: Rafael de Aguiar Paes de Barros (filho do Barão de Itu) e Rafael Tobias de Aguiar Paes de Barros (filho do Barão de Piracicaba e segundo do mesmo título). São comuns as confusões por conta dessa semelhança, algumas motivadas por descuido e falta de análise mais profunda, outras pela escassez de fontes disponíveis para consulta.


Rafael Tobias de Aguiar Paes de Barros, futuro Barão de Piracicaba II, ergueu um belo palacete por volta de 1870, um dos primeiros a serem implantados fora do alinhamento da rua. Sobrinho e afilhado do Brigadeiro Tobias (de quem possuía o nome), ele construiu sua casa num imenso terreno na esquina das ruas Senador Queiróz com Alegre, sendo os fundos voltados para a rua Triste, onde ficavam o pomar, as cocheiras e acomodações do escravos. Com mais de sessenta cômodos, a casa possuía os dormitórios no térreo, sendo que o estar formal e familiar se localizava no primeiro andar, considerado o pavimento nobre. Isso ainda era resquício dos sobrados coloniais, nos quais as acomodações para escravos e os serviços se encontravam no piso ao rés-do-chão. Provavelmente a construção era mista, usando taipa de pilão e tijolos de barro, estes com o brasão da Olaria Sampaio Peixoto, de Campinas.

Solar do Barão de Piracicaba II (Autor desconhecido, cerca 1929)


O Barão faleceu em 1898, mas sua viúva e alguns filhos residiram no palacete até 1918, quando foi ocupado pela escola de Farmácia. Foi nessa casa que um dos genros do Barão, o jovem bacharel Washington Luis Pereira de Souza começou a trilhar os caminhos da política. Casado com Sofia, certamente se beneficiou do prestígio que o sogro tinha na sociedade paulista, bem como da vasta e influente parentela. A residência do Barão de Piracicaba foi demolida em 1942.


Por volta de 1885 outro Rafael Tobias, primo e homônimo do anterior, também mandou construir para si um belo palacete, ao gosto neoclássico, mas que inovava ao transferir o andar nobre para o térreo, o que seria o padrão a partir de então. Externamente ambas as residências se assemelhavam, com pequenas modificações quanto à ornamentação.

Palacete de Rafael de Aguiar Barros (Axel Frick)


O palacete em que morou Antonio Alvares Penteado antes de mudar-se para Higienópolis foi construído junto ao alinhamento da rua, com entrada por jardim lateral, na década de 1890. Abrigou anos depois o Hotel Albion.

Palacete de Antonio Alvares Penteado, já funcionando como hotel (Autor desconhecido, cerca de 1929)


A rua Triste, talvez em acordo com o nome, pouca iconografia possui. Mesmo depois, quando seu nome foi mudado para rua da Conceição, não atraiu os ricos cafeicultores. Tornou-se em rua de comércio e moradias de classes menos favorecidas. Com o passar dos anos, a vantagem de morar perto da estação acabou se transformando em transtorno: trânsito, barulho, degradação do entorno, proliferação de hotéis baratos, tudo isso contribuiu para a decadência dessa região como endereço das elites, da mesma forma que ocorreu com a rua Florêncio de Abreu e os Campos Elíseos. Os velhos palacetes transformaram-se em hotéis, comércio, escolas ou cortiços, até serem demolidos e substituídos por edifícios.


Hoje a rua Triste cresceu, transformou-se em avenida e se chama Cásper Líbero; a Alegre continua rua, mas com o nome de Brigadeiro Tobias. Do antigo esplendor nada mais resta.


Para escrever este texto, além da bibliografia indicada na página principal, foi de inestimável valor o artigo Nos caminhos da Luz, antigos palacetes da elite paulistana. CAMPOS, Eudes

In: Anais do Museu Paulista. Jan/Jun 2005. Volume 13; pp. 11-57

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